Viver só

Sexta-feira, 26 Janeiro 2007 às 1:00 am | Publicado em Geral | 2 comentários

Lu�sa Castel-BrancoSe há algo para que a vida não nos prepara é para a morte. É estúpido, mas verdadeiro, porque desde que nascemos esta é a única certeza da nossa vida. Mas existem muitos tipos de morte. A física, a partir do corpo e da alma de alguém, essa é uma dor infinita. Mas também existe a morte do amor, uma e outra e outra vez, porque podemos morrer um pouco todos os dias na ausência do ser amado, na necessidade de continuar a viver, mesmo que sem sentido. E a morte da amizade, porque a vida encarrega-se da erosão daquela dedicação entre dois seres humanos que não é passível de transcrever em palavras, é apenas o estar lá quando o outro se perdeu.

A morte das relações familiares. Os laços de sangue vão perdendo a sua força e de repente damos connosco num beco sem saída, num deve e haver de mágoas que destroem para sempre aquilo que um dia foi a nossa história, a história do nosso berço e de quem nos rodeava desde os primeiros passos. A vida é madastra, diz o povo. E se dantes tudo isto era verdade, hoje, à velocidade com que vivemos os dias, nesta luta pela sobrevivência onde todos somos vítimas, mesmo aqueles poucos que detêm o poder, económico, passional, seja ele qual for, hoje as várias mortes acontecem cada vez mais cedo e mais depressa.

Vivemos rodeados por uma multidão de conhecidos e desconhecidos. E, contudo, vivemos uma solidão tão profunda que quase tem forma física, que quase se pode tocar. O nosso medo já não é morrer só, é viver só.

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Memórias (1)

Quinta-feira, 21 Dezembro 2006 às 12:11 am | Publicado em Geral | 5 comentários

Um certo dia, alguém recebeu em Dez. 2004 um email que dizia: “resolvi aderir à moda dos blogs; se te interessar, o link é este“. O destinatário do email abriu o link e pensou: “mas como é possível?! é preciso ter muitos conhecimentos para fazer isto!… “. O tempo foi passando, o destinatário do email ia lendo o blog e, ao mesmo tempo, andava por outros blogs e até em jornais a inserir comentários. Até que, por acaso, o “destinatário” (sem aspas a partir de agora, sempre que necessário, por economia de espaço e de tempo – que vai dar no mesmo com o tempo gasto neste parêntese!…) clicou no botão “I Power Blogger“. E o destinatário leu: Create a blog in 3 steps (o destinatário está a citar de cor, mas não andará longe da verdade). Foi avançando, teve dificuldade em escolher um nome, pensou em Farrusco (em memória ao cão nascido em Zala e que o acarinhava e acompanhava para todo a lado, mesmo com bombas a explodir e tiros por todos os lados!). Chegou a escrever Farrusco, voltou atrás, e decidiu escrever uma localidade que conhece bem (a cerca de 30 Km de Coimbra, N-S, à face da IC2/N1), ligada à época das primeiras comunicações em Portugal, através da diligência Malaposta que deu o nome à tal localidade que até então se chamava Ponte da Pedra. Acabara de ser criado o blog Malaposta, em 16.02.2005, autor AC. O remetente do tal email era (e é… aqui não há divórcios!) o filho de quem viria  a ser também autor dum blog – o Malaposta. 

Link para o post original.

José Saramago

Domingo, 17 Dezembro 2006 às 12:55 am | Publicado em Geral | 12 comentários

José Saramago e Pilar del Rio

José Saramago, um exemplo de vida e de escritor. Parabéns!

O cidadão português José de Sousa Saramago é um daqueles casos nada comuns de alguém que, já na idade madura, deu uma guinada radical na vida. Vinte anos atrás, estava ele, cinqüentão, solidamente estabelecido em Lisboa e num segundo casamento; vivia de traduções e tinha atrás de si uma breve experiência como jornalista. Nas horas vagas, administrava uma discreta carreira literária, iniciada na juventude com o romance Terra do Pecado, interrompida em seguida por quase duas décadas e desdobrada, a partir de 1966, numa dezena de livros que não chegaram a fazer barulho, a maioria deles coletâneas de poemas e de escritos jornalísticos. Nada permitia supor que José Saramago viria a se tornar quem hoje é: às vésperas de completar (no mês que vem) 76 anos de idade, um romancista lido e admirado em todo o mundo, traduzido para 21 idiomas e insistentemente apontado, desde 1994, como um dos favoritos para ganhar Prêmio Nobel de Literatura, tradicionalmente anunciado no mês de outubro e que seria o primeiro concedido a um autor de língua portuguesa. Pois foi aí, já quase sexagenário, que a vida de José Saramago – menino pobre que não teve um livro antes dos 19 anos e que na juventude trabalhou como mecânico de automóveis (embora não saiba dirigir) – se pôs a trepidar, num benfazejo terremoto que em pouco mais de uma década haveria de redesenhar a sua paisagem existencial.

Aos 57 anos, para começar, ele finalmente decolou como escritor ao publicar o romance Levantado do Chão. Aos 64, encontrou o que acredita ser o seu definitivo amor em alguém 28 anos mais jovem, a jornalista sevilhana María del Pilar del Río Sánchez. Aos 70, transplantou-se das margens do Tejo para uma ressequida ilha vulcânica espanhola onde não corre um ribeirão sequer e toda a água tem que ser tirada do mar, Lanzarote, a mais oriental das sete Canárias, com 50 000 habitantes e 805 quilômetros quadrados.

Ali, numa casa que vem a ser a primeira e até agora única propriedade desse persistente militante comunista, foram escritos seus livros mais recentes, Ensaio sobre a Cegueira e Todos os Nomes, além dos diários intitulados Cadernos de Lanzarote, encorpando uma obra na qual já se destacavam os romances Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra e O Evangelho Segundo Jesus Cristo. No Brasil, onde o melhor de Saramago já foi publicado, apenas este último título vendeu 85 000 exemplares.

A virada na vida do escritor foi engatilhada de maneira acidental, em 1975, quando, demitido do cargo de diretor-adjunto do Diário de Notícias ele decidiu não procurar emprego, abrindo assim espaço para que a sua criação literária deslanchasse em regime de dedicação exclusiva.

José Saramago, que tem uma filha, Violante, bióloga, de seu primeiro casamento, e dois netos, Ana e Tiago, já era autor consagrado em 1992, quando o ateísmo contundente de O Evangelho Segundo Jesus Cristo desaguou num episódio de censura que acabou determinando a sua mudança para Lanzarote, onde se instalou em fevereiro de 1993. O editor sênior Humberto Werneck, de PLAYBOY, lá esteve para entrevistar o escritor e conta:

“Branca, com dois pavimentos, a casa de José Saramago se chama exatamente isso, ‘A Casa’, conforme se lê junto ao portão de entrada. Fica no número 3 da Rua Los Topes, numa esquina da minúscula cidade de Tías, mas pode ser que o visitante tenha dificuldade em encontrá-la, pois o dono de A Casa, tendo lido sobre a história do lugar, decidiu restabelecer a sua antiga denominação, hoje inteiramente esquecida, Las Tías de Fajardo.

“Os carteiros de Lanzarote já se conformaram com a esquisitice, e não é impossível que o mesmo acabe acontecendo com os demais lanzarotenhos, sobretudo se o ilustre forasteiro vier a ganhar o Prêmio Nobel. Já são provavelmente maioria os nativos capazes de reconhecer aquele senhor alto, desempenado e sobrancelhudo, com óculos grandes demais para o seu rosto e cabelos grisalhos que escasseiam no alto e abundam, um tanto alvoroçados, na parte de trás da cabeça. Saramago ganhou faz um ano o título de ‘filho adotivo’ da ilha e só não é ‘o’ escritor de Lanzarote porque lá vive o romancista espanhol Alberto Vásquez-Figueroa, com quem fez camaradagem.

“Reservado, porém afável, de pouco riso mas longe de merecer a fama de mal-humorado que o persegue, José Saramago acumula as características a princípio excludentes de homem a um tempo caseiro e viajador: duas vezes por mês, em média, ele abandona a paisagem lunar de Lanzarote para atender a compromissos profissionais, sempre em companhia de Pilar del Río, hoje a sua tradutora para o espanhol e revisora das antigas traduções.

“Quando está na ilha, o escritor pouco sai de sua casa, plantada num jardim atapetado de picón, cascalho fino de origem vulcânica de cor preta ou tijolo escuro. A vegetação esparsa inclui duas oliveiras que o escritor quis ter ali por serem as árvores de sua infância na Azinhaga, povoado da região portuguesa de Ribatejo onde nasceu, filho de pais camponeses muito pobres, e onde viveu até mudar-se para Lisboa, aos 2 anos de idade.

“Num dos cantos do jardim há uma piscina (coberta, por causa do vento forte) com 7 metros e meio de comprimento, que o escritor atravessa pelo menos trinta vezes todos os dias – uma das explicações para a excelente forma física em que se encontra a apenas quatro anos de tornar-se octogenário. O mesmo se diga, aliás, da bela e simpática Pilar del Río, que aos 47 anos, mãe de um rapaz de 21, Juan José, que mora com o pai em Sevilha, não aparenta mais que 35.

“Marido e mulher têm, cada qual, seu escritório, e o de Saramago, no segundo piso, deixa ver o mar. As edições portuguesas e estrangeiras de seus livros espremem-se numa estante com quatro prateleiras e bom metro e meio de comprimento. Numa fotografia, uma tabuleta em francês provoca o ateu empedernido: “Dieu te cherche” – Deus te procura. Nesse escritório (onde foram gravadas, em três rodadas, as 7 horas desta entrevista), usando um laptop Canon acoplado a um monitor Samsung, Saramago escreve pela manhã e no final da tarde a sua quota diária de literatura, nunca mais de duas páginas, ao som de Mozart, Bach ou Beethoven, e responde a algumas das cartas, cerca de 100, em média, que lhe chegam todos os meses de vários cantos do mundo.

“Depois do almoço, já embarcado no hábito espanhol da siesta, ele cochila ou apenas relaxa na sala, no andar térreo. Nesses momentos nunca lhe falta a companhia da fauna canina doméstica: o cão d’água português (espécie de poodle) Camões, a yorkshire Greta e o poodle Pepe. À noite, na cozinha, vai repetir-se um ritual: sentam-se os três diante de seu dono, que, faca na mão, distribui rodelas de banana. Pepe foi batizado pelo escritor na esperança de que não sobrasse para ele próprio esse apelido a que, na Espanha, praticamente todos os Josés se acham condenados. Camões assim se chama porque apareceu na casa no dia de 1995 em que Saramago ganhou o Prêmio Camões, concedido anualmente pelos governos de Lisboa e Brasília a um escritor de língua portuguesa e que já distinguiu os brasileiros Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Rachel de Queiroz e Antonio Candido. Camões adora livros: comeu duas biografias do presidente sul-africano Nelson Mandela, em diferentes línguas, e ultimamente se dedicava a roer as bordas de um grosso álbum de pinturas de Goya.

“Ao contrário de outros autores lusitanos, Saramago exige que seus livros sejam publicados no Brasil exatamente como saíram em Portugal, sem concessões destinadas a facilitar o entendimento do leitor brasileiro. Na transcrição desta entrevista, PLAYBOY não chega a adotar a ortografia vigente em Lisboa, mas busca não abrasileirar a fala do escritor. Como, ó pá, ninguém é de ferro, algumas palavras ganharam ‘tradução’ entre colchetes.”

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“Ser-se comunista é um estado de espírito. (…) Sou comunista. (…)
[Mas] São os fatos que mostram:
setenta anos de construção do socialismo
na União Soviética não chegaram para fazer comunistas.”

“Meu avô, analfabeto, homem simples,
sem nenhuma das sofisticações da civilização,
foi de árvore em árvore, abraçou-se a cada uma delas,
chorando. Ele adivinhava que não voltaria.”

“Não escrevo mais que duas páginas por dia.
Ao fim da segunda, paro, mesmo que pudesse continuar.
Parece pouco, mas duas páginas por dia,
todos os dias, ao fim do ano são quase oitocentas.”

Texto retirado da Net, Jornal de Poesia – Brasil.

Mário Viegas

Domingo, 3 Dezembro 2006 às 12:05 am | Publicado em Geral | 4 comentários

Mário Viegas

Fez 58 anos no dia 10 de Novembro. E digo fez, porque o Mário Viegas não morreu! Arqueólego literário, actor e encenador de fazer faíscas nos olhos, o Mário, que era salgado, teve uma vida destinada a vencer a morte.
A sua vocação foi sempre a de dizer, dizer-se, afirmar, afirmar-se. Passou a vida a tentar ser o Mário Viegas. E não é que conseguiu! Tinha uma relação “tu cá, tu lá” com os poetas. Mas não disfarçava a proximidade ao Almada Negreiros. E, da sua boca salgada, saíam descargas de génio que, ainda hoje, ecoam no pequeno cérebro da nossa mesquinha modernidade: «Tu que aperfeiçoas a arte de matar, tu que descobriste o cabo da Boa Esperança e o caminho Marítmo para a Índia e as duas grandes Américas e que levaste a chatice a estas terras e que trouxeste de lá mais chatos p’rá-qui e que, ainda por cima, cantaste estes feitos. Tu que inventaste a chatice e o balão e que, farto de te chateares no chão, te foste chatear no ar, e que ainda foste inventar submarinos para te chateares também debaixo de água, tu que tens a mania das invenções e das descobertas e que nunca descobriste que eras bruto, e que nunca inventaste maneira de o não seres… E vós também, toda a gente, que todos tendes patrões… Ó coito de impotentes a corar no riacho da Estupidez… E tu, também, ó mau gosto com a saia de baixo a ver-se e a falta de educação. Tu consegues ser cada vez mais besta e a este progresso chamas civilização». Ó Mário salgado, ó Mário Viegas… que saudades do futuro!

Eça de Queirós

Quinta-feira, 30 Novembro 2006 às 12:15 am | Publicado em Geral | 2 comentários

O Caso Clínico de Eça de Queiroz. Contributo para a sua patobiografia
Autor: Ireneu Cruz (médico)
Informações: 1ª edição – Setembro de 2006. Páginas – 88. Preço – 8.40 euros.

“A partir de limitada informação com significado clínico, faz-se um estudo da enigmática doença do romancista Eça de Queiroz, que lhe roubou a vida aos 55 anos de idade. Tecem-se considerações de ordem clínica, por vezes imbuídas de inerente subjectividade, com base em fragmentos da sua correspondência com amigos e familiares e em observações mais objectivas de alguns dos melhores autores da Geração de 70.
A evolução da sua doença, agravada progressivamente, é avaliada ao longo da diáspora que constituiu a sua vida. Faz-se uma discussão clínica à luz dos conhecimentos actuais, que afasta o estigma do diagnóstico de tuberculose entérica ou de uma hipotética amebíase intestinal, mais recentemente aventada. Discute-se o diagnóstico diferencial de uma síndroma de má absorção que teria afectado durante mais de vinte anos o romancista. Conclui-se admitindo a hipótese de Eça de Queiroz sofrer de uma arrastada doença inflamatória intestinal, provavelmente a doença de Crohn, e de ter sido vítima das suas complicações. Aflora-se também a possibilidade de existir uma relação desta sua doença crónica com o facto de algumas das suas obras ficarem inacabadas e só terem sido postumamente publicadas.”

In Ed. Caminho.

Publicado por Fradique, no post de 22.09.2006.

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